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Por Jessé Rebouças.

O mundo experimenta o sentimento de perplexidade e revolta de maneira generalizada. O lugar comum das manifestações sintomáticas de tais acontecimentos não poderia ser outro senão a política. A conjuntura que denota uma hecatombe das instituições traz, de modo tautócrono, a sequela de que as necessidades públicas se tornam aspirações individuais. Resultado, está claro, da pulverização da visão da sociedade civil acerca da eficiência dos mecanismos de autocontrole das funções (ou Poderes) do Estado.

A última pesquisa de opinião apontou – realizada pela “DataPoder360”, entre brasileiros e brasileiros com 16 anos ou mais, em 217 municípios e com 2.058 entrevistas – que 65% dos brasileiros votariam em candidatos não políticos, aqui chamado de “candidatos outsiders”, ainda segundo a mesma pesquisa, valores como “experiência”, preparo e capacidade são secundários para a maioria esmagadora da população.

A ascensão dessa opinião pode ser vista não apenas em Brasil, também em outros países, a exemplo dos EUA com Mr. Tangerine Man (Donald Trump), empresário que se alçou à presidência com discursos ‘desviados’ à política como a conhecemos, ou João Dória, atual prefeito da maior cidade do Brasil. Esses candidatos possuem, basicamente, o mesmo badalo, atingindo às massas com supostas ideias ‘não políticas’, tendo por fundo temas próprios ao direito penal do inimigo, empedernimento da legislação, “mar de lama” da política, xenofobia e a necessidade de se colocar alguém que não é do ramo para ‘endireita-la’.

A esses outsiders, assuntos como economia política, política monetária e investimentos estratégicos não constam no léxico, porque quando o Estado balofo intervém na economia há um desequilíbrio e uma desaceleração da dinâmica própria a esse ente ‘espectral’ mercado, discurso desmoralizado desde sempre e que hoje encontra-se ainda mais avacalhado com a iniciativa privada entalada “até o gogó” em ratonagem e patifaria, bem como diante das montanhas de dinheiro público injetados em segmentos da economia após o “bailout” de 2008.

O sociólogo tudesco Herbert Marcuse, em “One-Dimensional Man – studies in the Ideology of Advanced Industrial Scoiety”, fornece-nos conceitos, principalmente pelo atual momento de cólera por que passa o mundo, que ajudam a destrinchar o mistério que permeia essa eclosão dos supostos ‘não políticos’. Esses candidatos são o que Marcuse chama de “pensamento negativo”, subconscientemente são uma tentativa de ajuste aos desajustes do estado das coisas do mundo e suas relações. Porém, o que há por debaixo dessa tentativa de ajuste é “reduzir a oposição à discussão e promoção de diretrizes dentro do status quo”.

“O problema da política são os políticos”, pensam, mas esses ‘não políticos’ reduzem o comprimento de onda da política a dimensões mínimas e a escala monocromática, uma vez que faz oposição às modernas formas heterogêneas, respeito às diferenças e alteridade – pelo menos em discurso e como fim a ser perseguido – que se esvaem com as ideias ultrarreacionárias defendidas por esses grupos e a política que translada do campo das possibilidades para o campo do engessamento, circunscrevendo-se a aspectos reduzidos da vida social e deixando no ‘piloto automático’ do acaso segmentos essenciais da política do Estado. Destarte, fomentam a política que foi soberana durante a década de 60 e 70 do século passado, conhecida como “doutrina da segurança nacional”, concentrada no que o sistema elege como agentes daninhos.

Fato é que extrair da política sua multicoloração significa encarcerar a capacidade de escolher, através do olhar social, as várias veredas de atuação do agente político. O tão só fato de não existir nada fora da política já demonstra não só a incapacidade desses outsiders lidarem com a complexidade dos assuntos que perpassam a vida de todos, como também uma incúria à construção de saídas, o que caracteriza ou não um político de boa cepa. Tão pernicioso quanto os fósseis-parasitas que sugam a vitalidade da democracia, são os que afirmam sua existência para logo após negá-la em sua essência.