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FAUSTO

Tens medo ao pentagrama! Essa é bonita! E quando entraste, diabão do inferno,

emandingou-te acaso? Um génio desses

deixa-se assim lograr?...

MEFISTÓFELES

É uma lei de espectros e demónios:

sai-se por onde se entra; à entrada livres,

forçados no sair.

FAUSTO

Pois há leis no inferno?

Acho-o excelente. Pode então convosco

Um contrato seguro celebrar-se?...

MEFISTÓFELES

Junto comigo percorrer o mundo

 A teu dispor me tens; desde já pronto

Companheiro sou teu, e, se convenho,

Também serei criado, humilde fâmulo.

FAUSTO

Que te hei de eu tornar em paga disso?

MEFISTÓFELES

Obrigo-me a servir-te cá na terra,

a teu aceno obedecendo,

se, quando no outro mundo toparmos,

o mesmo fizestes.

(GOETHE. Fausto. 2ª edição. São Paulo: Martin Claret, p. 65-73) – grifo acrescido.

 

                Os ventos tropicais sopraram de modo retumbante do Oiapoque ao Monte Caburai na República. Os irmãos Joesley e Wesley, mandachuvas da JBS, toparam acordo de delação premiada onde apresentam gravação do presidente em exercício, Michel Temer, tramando – com o perdão do trocadilho – financiar o silêncio do ex-presidente da Câmara Federal, atualmente membro pop star do sistema prisional brasileiro, Eduardo Cunha, para evitar uma futura delação premiada por parte do ex-parlamentar. O tratante preposto para intermediar a manutenção do silêncio de Eduardo Cunha, nomeado diretamente por Temer, é o deputado pmdebista Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) e que foi filmado recebendo uma mala com 500 mil reais enviada pelos empresários.

                “De revetrés”, como se diz aqui no Nordeste, a delação pactuada entre os figurões da JBS e a PGR (Procuradoria Geral da República) alcançou o ex-ministro Guido Mantega e “o Mineirinho” – como constava de maneira muito carinhosa na lista de propina da Odebrecht, na casa dos 15 milhões de reais –, Aécio Neves, desta feita, pirangando a ‘módica’ quantia de 2 milhões de reais, a ser pago a seu primo, tudo devidamente filmado pela Polícia Federal.  A delação iminente traz os ingredientes já esperados por todos.  A situação nevrálgica exige uma digressão.  

                O segundo mandato da ex-presidente Dilma foi dramatizado e novelizado pela crescente promiscuidade envolvendo os altos mandatários do PMDB, notadamente Eduardo Cunha e sua falange que o blindava e conferia-lhe majoritariedade sob a trombeta do escamoteio. Assim, havia um forte poder de barganha, a patifaria sentou praça no Congresso Nacional. O nível de achaque era tão alto que Michel Temer – íntimo e, aparentemente, atravessador de propina para Eduardo Cunha – confessou em recente entrevista a um canal de televisão que o impeachment só ocorreu porque o Partido dos Trabalhadores não quis negociar os votos para safar o então presidente da Câmara do Conselho de Ética, de modo a absolvê-lo.

                Vencida essa etapa (impeachment), de maneira ingênua, o presidente em exercício – ou “pinguela”, como gosta de chamar FHC – achou que seu potentado perpetuar-se-ia sem as atribulações por que o poder, no Estado Democrático, passa. Presumiu que a instabilidade política cessaria com seu physique de rôle centrado na obtusidade dos valores – apresentando a mulher como penduricalho de enfeite ao lado do esposo ou simplesmente pilota de carrinho de supermercado. Inacreditável! Não entendeu que seus serviços transladaram de mero alcoviteiro no Palácio do Jaburu para o de responsável por seguir de maneira estrita a cartilha redigida pelo poder real do país. Não está entregando. A reforma da previdência parece ser um sonho bem mais distante e a reforma trabalhista passou por uma sacodida severa após as paralisações de 28/04, o Senado está recuando, mesmo com todas as bravatas empreendidas pelo Planalto.

                Tal como Fausto pensou ser possível interromper o contrato firmado com Mefistófeles, Temer julgou ser possível continuar sem entregar o ‘pacote do pinguela’. Por quê? Pensou, de maneira equivocada, que não havia opção e que “après moi le déluge[1] (depois de mim o dilúvio). Ocorre que, mesmo passando de “República de Banana” para “a República Jabiraca”[2], o País irá sobreviver a esse momento de expiação em sua história institucional. Nesse momento, recorde-se a lição de Machado de Assis quando disse certa vez, em um dos seus contos profitentes – “Pai contra Mãe” –, que “a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez cruel”[3]. Assim seja!

  


[1] Frase atribuída a Louis XV – outros a Madame Pompadour –, conhecido por seu ego exacerbado. 
[2] Jabiraca é sinônimo de pessoa escandalosa, aquela que dá chilique em local público. Bom, o Brasil hoje é a República dos escândalos.
[3] ASSIS, Machado de. 50 Contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson. Companhia das Letras, 2005, p. 371.