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Há tempos circula pela internet a piadinha na qual uma menina diz: “Meu nome é Jaqueline, tenho doze anos e já faço sexo”. O interlocutor, espanto diz: “já o que????”, no que a garota responde, inocente: “queline”.

Foi o que aconteceu com a fala da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que, em um momento de descontração, disse, rindo, que meninos vestirão azul e meninas vestirão rosa.

A mídia e os “do contra” de plantão sempre agem tal qual na (triste) anedota de Jaquelini: ignoram o principal e focam no supérfluo. Se na piada a menina age com aparente inocência, nada há de puro na conduta dos críticos, se não uma tentativa de, mais uma vez, criar um problema que não existe e desviar o foco daquilo que é importante.

A militância é tão forte que transforma uma figura de linguagem, uma expressão, em escândalo, em um novo Reich. Como disse Paulo Briguet em seu artigo, “para a esquerda brasileira, dizer que menina veste rosa e menino veste azul é um escândalo, mas fazer um contrato de R$ 45 milhões para a criação de uma "criptomoeda indígena" é perfeitamente normal” (https://bit.ly/2F9SPSX).

Não é anormal que meninos vistam azul e meninas, rosa, é um costume do nosso povo e funciona tão bem que temos Setembro Rosa para prevenção de câncer de mama e Novembro Azul para o de câncer de próstata. O comércio segue a mesma tendência de cores.

A gritaria está no fato de que não foi possível o aparelhamento da alma do povo brasileiro, por mais que se tenha tentado nas últimas décadas, e meninos ainda vistam azul e meninas, rosa. Isso não é óbice para se respeitar a diferença entre as pessoas, pelo contrário, quem quer ser respeitado deveria, em primeiro lugar, saber diferenciar preconceito de modo de vida.

Tenho certeza que muitas pessoas que se indignaram com essa fala acreditam que estão fazendo algo bom, e outras, que a defendem, estão só ocultando seus preconceitos, mas não dá para generalizar (recomendo a leitura desse artigo do Rodrigo da Silva, no Spotniks, “6 coisas que você deveria saber antes de postar seus comentários políticos na internet”, https://bit.ly/2LnicPF).

Sim, somos um país em que meninos vestem azul e meninas vestem rosa, por mais que tenham tentado impor o contrário. É um país no qual ainda insistem em criar banheiros unissex em escolas infantis (https://glo.bo/2LUdBqb), o que é visto com naturalidade por quem se diz contra a pedofilia, o sexo prematuro e o estupro.

Também somos um país que faz um contrato sem licitação para criar uma criptomoeda indígena no valor de R$ 45 milhões, a serem pagos pelo contribuinte, o que foi sabiamente suspenso pela ministra Damares.

E é um fenômeno curioso que à mídia e aos ditos “justiceiros sociais” incomode muito mais um chiste num momento de descontração do que o aludido contrato.

Uma expressão dita em um momento de chiste pela ministra é, com certeza, menos escandalosa que outros exemplos. Cito um trecho de outro artigo meu: “Pouco ou quase nada se destaca do discurso de ódio de uma Marilena Chauí gritando que odeia a classe média, a quem rotula como conservadora, petulante, terrorista, fascista, abominação ética e violenta, (…) que a aplaude junto à platéia (https://bit.ly/1yPnO83), ou um Mauro Iasi, dizendo que a luta de classe deve ser radicalizada, e cita um poema de Brecht incitando a levar os que pensam diferentemente da esquerda ao paredão para serem fuzilados e levados a uma “boa cova”, aplaudido por um auditório quando diz “com a direita e o conservadorismo, nenhum diálogo, luta” (https://bit.ly/2PYfEeF) (…)”.

Entre o azul e o rosa, temos uma matiz ainda indeterminada do negro do luto pelas mazelas do nosso país, muito mais prioritária do que uma banalidade desse jaez, que só fez destacar de forma figurativa aquilo que já acontece na sociedade, o que o fundamentalismo militante se nega a ver.

O estado é, e deve continuar, laico, mas um estado laico não é ateu, nem se pode defender o sonho de um gramscismo delirante de apagar a história e o modo de vida de um povo em prol de uma bandeira, esta sim, fundamentalista, que não aceita a diversidade, a diferença e não respeita a liberdade de expressão.

Se há um motivo para choro nesse país, ele está entre as matizes de nosso luto: as cores de uma sociedade ainda violenta, ainda desigual, ainda corrupta e ainda apartada de virtudes fundamentais, boiando a esmo e guiada por qualquer onda ideológica que permita uma lacração sem esforço, qualquer que seja ela, de direita ou de esquerda.

Eduardo Perez Oliveira
Juiz de Direito

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