A leitura de diferentes artigos sobre fake news indicam que foram as eleições nos Estados Unidos em 2016 que popularizaram o uso dessa expressão. A princípio, isso pode ser dito como uma aposta indubitável, sem maiores detalhes que a corroborem. Mas alguns estudos têm ido além e usado de diferentes metodologias e objetos para verificar se de fato as coisas foram assim.

Evandro Cunha e colaboradores, por exemplo, fizeram um levantamento em publicações entre 2010 e 2018 de jornais e revistas de língua inglesa de 20 países, o que se constatou é que o número de citações variou de 95 em 2015 para 4.766 menções em 2016. As eleições de 2016 nos Estados Unidos não somente fizeram alavancar o número de referências a fake news como também realocou o universo semântico da expressão para o campo político.

A importância recente em torno da expressão fake news também pode ser vista a partir do momento em que os jornais dos Estados Unidos passaram a citar o termo, considerando suas contas oficiais no Twitter. The New York Times, Washington Post e CNN têm conta no Twitter desde 2007. Mas o salto relevante no número de menções começou em 2016. The New York Times passou de duas citações em 2015 para 42 em 2016. Washington Post também passou de duas vezes em 2015 para 53 em 2016. E, até 2015, a CNN não havia feito citações, mas fez 42 em 2016. Vale reiterar que essas referências foram dentro do contexto temporal e semântico das eleições que ocorriam no país em 2016.

A França também experimentou a popularização de fake news dentro de cenário político. As pesquisas a partir do território francês obtiveram seu primeiro pico em maio 2017. Naquele período, o país estava elegendo Emmanuel Macron como presidente. Não por coincidência, as referências ao termo fake news pelos principais jornais do país só começaram a partir de 2017. Neste caso, foi considerado o Twitter do Le Monde, Le Fígaro e Libération. O Le Monde passou de uma citação em 2016 para 20 em 2017 e 21 em 2018. Le Figaro passou de um post em 2016 para 32 em 2017 e 58 em 2018. Já o Libération citou uma vez em 2016, 32 em 2017 e 72 em 2018.

E na situação do Brasil o contexto é o mesmo. As pesquisas por fake news tiveram seu auge em outubro de 2018, no decorrer do 2º turno das eleições. Além disso, as referências no Twitter dos principais jornais do país também só começaram a partir de 2017, problematizando o cenário que poderia ser verificado nas eleições do ano seguinte.

O Estadão só veio a citar diretamente fake news em 2017. Foram 16 referências naquele ano e 116 em 2018. O mesmo ocorre com Folha e O Globo. No primeiro ano de citações, 2017, Folha publicou 26 vezes. Em 2018 foram 220. O Globo passou de 16 posts em 2017 para 96 em 2018, conforme indicado no gráfico abaixo.

A jornalista Teresa Perosa cita três fatores que teriam criado um ambiente propício para essa disseminação. O primeiro seria o ambiente de alta polarização política, que não favorece nem o debate racional nem o apreço pelo consenso. O segundo é a descentralização da informação, por causa da ascensão de meios de comunicação alternativos e independentes, propiciada pela internet. Parte dos novos canais contariam com uma agenda política, e seus compromissos propagandísticos e ideológicos suplantariam qualquer compromisso com informação factual. O terceiro fator é o ceticismo generalizado entre as pessoas quanto às instituições políticas e democráticas – sendo os principais alvos os governos, os partidos e os veículos de mídia tradicional.

Pode ser tentador afirmar que fake news são notícias falsas. Sim, mas não só. Há diversos pesquisadores do assunto que argumentam que fake news não é o melhor termo para denotar o que faria parte de um contexto maior. Na verdade, estaríamos diante de uma expressão vaga e carregada de valores. Há muita informação política e ideologicamente problemática e que não poderia ser categorizada como fake news, afirma a professora de comunicação da Universidade da Carolina do Norte, Alice Marwick.

Neste contexto, vale citar o trabalho de Claire Wardle. Ela é diretora do First Draft News, uma ONG fundada para desenvolver diretrizes éticas e fornecer ferramentas para a reportagem jornalística e o compartilhamento de informações no meio digital. Claire aponta para a imprecisão conceitual da expressão fake news e avança sobre as nuances em torno dessa ideia, a qual entende fazer parte de um ecossistema da desinformação. Na categorização proposta, devemos fazer as seguintes divisões do que tem sido chamado genericamente de fake news: os diferentes tipos de conteúdo que são criados e compartilhados, as motivações daqueles que criam esse conteúdo e as formas como esse conteúdo está sendo divulgado.

Assim, haveria pelo menos sete tipos de desinformação. A primeira é a falsa conexão: quando manchetes, ilustrações ou legendas não confirmam o conteúdo. A segunda é o falso contexto: quando o conteúdo genuíno é compartilhado com informação contextual falsa. A terceira é a manipulação do contexto: quando a informação ou imagem genuína é manipulada para enganar. O quarto tipo de desinformação seria a sátira ou paródia: quando não há intenção de prejudicar, mas tem potencial para enganar. O quinto é conteúdo enganoso: uso enganoso de informações para enquadrar uma questão ou indivíduo. O penúltimo é conteúdo impostor: quando fontes genuínas são imitadas. Por fim, teríamos o conteúdo fabricado: conteúdo novo, que é 100% falso, criado para ludibriar e prejudicar.

Os pesquisadores da USP Márcio Moretto e Pablo Ortellado afirmam que entre aqueles que debatem a relevância analítica do termo fake news há grande controvérsia sobre pelo menos dois pontos. O primeiro seria o conceito deve se referir apenas a conteúdo noticioso comprovadamente falso ou se deve se referir também a outras técnicas de desinformação e engano, como os exageros, as omissões, as informações tiradas de contexto e as especulações. O segundo ponto seria se o se o conceito deve incluir apenas o conteúdo falso produzido intencionalmente ou se compreende também qualquer tipo de equívoco factual verificável, mesmo que não seja intencional, como um simples erro de apuração.

Para Moretto e Ortellado, adotar uma dessas definições não deve ser uma escolha arbitrária. Eles ponderam: “A análise do que se convencionou chamar ‘sites de notícias falsas’ deveria orientar e informar a definição adotada. E se analisarmos o funcionamento destes sites, veremos que o que melhor os define não é publicar notícias falsas — o que só acontece ocasionalmente — mas produzir ‘informação de combate’ na forma de matérias noticiosas.” Por esse motivo, há uma parceria de pesquisadores que têm preferido o conceito de mídias hiper-partidárias ao de sites de notícias falsas.

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Ezequiel Vieira é jornalista, analista de mídias sociais e pós-graduando em Comunicação e Marketing Digital.

Fonte: Observatório da Imprensa (09/04/2019)

Fake News: descentralização das informações e polarização política